Orientar os filhos na escolha da profissão
TAMBÉM FAZ PARTE DO PAPEL DO PROFISSIONAL ORIENTAR OS FILHOS NA ESCOLHA DA PROFISSÃO
Lucila Camargo *
Um recado para os pais: a hora de escolher a profissão é um momento crítico na vida dos jovens, e não cabe a vocês escolher, mas sim acolher.
Desde o nascimento dos filhos, é natural que sonhemos com o que há de melhor na vida para eles. Queremos que sejam felizes, que cresçam fortes e saudáveis, que tenham uma excelente educação e uma boa formação escolar e que reúnam, ao longo da infância e da adolescência, condições e ferramentas para enfrentar um mundo tão competitivo, tornando-se adultos competentes e felizes, obtendo sucesso pessoal, afetivo e financeiro, é claro!
Queremos filhos que sejam reconhecidos, admirados e bem sucedidos. Mais do que isso, que não passem por dificuldades, necessidades ou crises. Enfim, que não sofram. Para tanto, não medimos esforços e decidimos tudo o que nós, pais, achamos que é o melhor. Escolhemos a escola, o clube, as aulas de música, de artes marciais, o curso de inglês, o de computação...
Isso significa que criamos nossos filhos fazendo escolhas por eles de acordo com o nosso modo de enxergar o mundo. E a cada decisão que tomamos, estamos lá, atrás, financiando e colaborando para o seu crescimento, e a frente, incentivando o seu desenvolvimento, dando as broncas necessárias e enchendo-os de aplausos a cada nova vitória. Mas quando chega a hora da escolha da profissão, a situação é diferente...
Mas será que ele vai saber escolher?
Sim, nesse momento a coisa muda. Eles não são mais crianças, e terão que arcar com a responsabilidade do exercício da profissão. Então, somos simplesmente obrigados a "engolir" que chegou a hora deles fazerem sozinhos a sua primeira grande escolha. E, por mais que confiemos em quem criamos, nada será suficientemente bom se a escolha deles não coincidir com o nosso sonho de felicidade.
Por exemplo, como um pai que é dentista vai entender que o filho prefira ser professor de Educação Física numa escola pública de uma cidade do interior a herdar sua clínica dentária, já com clientela formada? Ou como pais empresários de grande sucesso podem acreditar que a filha será feliz e bem sucedida ao escolher o curso de formação de oficial da Polícia Militar? E um exemplo bem mais comum: o que um jovem deve dizer aos pais que se arrepiam só de imaginar que o filho quer ser músico? Muitos deles são bastante talentosos e viveriam felizes dando aulas de instrumentos musicais, integrando uma orquestra, gravando com bandas, trabalhando em estúdios ou compondo sons incidentais e jingles de rádio e televisão.
Estas escolhas podem parecer aos pais tão insensatas quanto assustadoras, mas quando se sente a confiança de ter criado os filhos para enfrentarem o mundo como cidadãos inteiros e independentes, com certeza, passado o primeiro momento de espanto, virá o de aceitação e acolhimento.
MAS COMO AJUDAR SEU FILHO?
Este momento é, sem dúvida, hora de cruzar os braços e não escolher pelos filhos. Momento de abrir os braços para acolher a escolha que fizerem e acolhê-los nos tropeços ou percalços do novo caminho.
A primeira coisa que devemos ter em mente é que a escolha profissional é só um dos muitos fatores que fazem parte da vida do adolescente na passagem para a vida adulta. Se esse fosse todo o problema, seria mais fácil, a questão é que ao mesmo tempo, ele está vivendo seu contínuo processo de desenvolvimento.
É preciso considerar que, do ponto de vista físico, ele está crescendo, despertando para a sexualidade. Psiquicamente, há novos processos mentais que agilizam o seu raciocínio. Emocionalmente, aparecem as primeiras paixões, a necessidade de aceitação na turma, os medos e as fantasias. Do ponto de vista de comportamento, os pais, sem se dar conta, mudam o jeito de agir e cobram do filho adequação a novas regras familiares, muitas vezes sem abrir mão das mais antigas, necessárias durante a infância. Aquela coisa de dizer "Você não tem mais idade para ficar provocando e brigando com seus irmãos menores" ao mesmo tempo em que diz "Você ainda não tem idade para acampar sozinho com um bando de amigos". Contradições absolutamente normais para os adultos, mas que confundem a cabeça do jovem e podem causar distanciamento e conflito entre pais e filhos.
O diálogo é sempre a melhor forma de enfrentar a situação. Tenho algumas sugestões para melhorar a comunicação entre pais e filhos e fazer com que este diálogo realmente aconteça:
Comece por perceber que ninguém explica - nem para os pais e nem para os filhos - que a mudança de comportamento se dá nos dois lados desta relação. Aceite que este momento é mesmo contraditório, e que é preciso aprender a lidar com sentimentos e situações conflitantes.
Se o jovem está sendo treinado para virar adulto, os pais precisam treinar para realmente se afastarem da individualidade do filho e renunciar a considerá-lo criança. É preciso permitir que ele ande com os próprios pés e dê os seus próprios passos, e é necessário garantir que mesmo que ele faça uma escolha diferente daquela tantas vezes sonhada ou não passe no vestibular, isso não vai mudar em nada o amor que os pais sentem por ele.
A recíproca também é verdadeira. Quero dizer, como pais, devemos saber que o fato de incentivar nossos filhos a fazerem suas próprias escolhas - o que muitas vezes significa contrariar nossos desejos não vai diminuir o afeto que a nós dedicam.
Fonte: Jornal Carreira & Sucesso