Coluna do Teco

O RISCO É NÃO CONHECER O RISCO

Durante muitos anos, nossos avós ensinaram aos nossos pais a evitar assumir riscos. Essa ideia central levou muitas gerações a preferir a “segurança” dos imóveis, terras, gado e caderneta de poupança em detrimento a qualquer outro tipo de investimento que pudesse ser melhor do que as citadas, porém com algum risco.

Essa geração, nossos pais, tendo muita dificuldade em passar a lição adiante começou a profetizar outra frase famosa: “Alto risco, alto retorno”. A ideia para convencer a nova geração a evitar os riscos vinha da pergunta se valia a pena corrê-los para ter aquele tipo de retorno. Claro que muitas vezes essa tese fazia algum sentido, dado que as taxas de juros no Brasil sempre foram exorbitantes, o que significa afirmar que as aplicações “conservadoras” sempre tiveram um grande benefício na equação risco/retorno, pois ofereciam grandes rentabilidades com baixos riscos. O pano de fundo, no entanto, continuava a ser tentar impedir que os filhos investissem em algo que pudesse ter risco.

Usando as afirmações acima faço duas perguntas: Como é possível afirmar que os imóveis e as terras não se desvalorizam ou perdem liquidez, que o gado não morre e que as cadernetas de poupança (que são garantidas apenas até R$20.000,00) são aplicações mais conservadoras do que outras? Outra pergunta: Se o que importa é a relação risco/retorno, ou seja, ter chances de ganhar muito e perder pouco a melhor coisa não seria “investir” em bilhetes da mega sena? Afinal você aposta R$1, tem chance de ganhar até R$ 30 milhões e se perder, foi apenas R$1.

Todas as respostas evidentemente são erradas, pois o problema do risco não é o tamanho do mesmo é sim o desconhecimento do mesmo. Correr risco não é ruim, o que é ruim é não saber a dimensão do risco que estamos correndo. Isto se aplica a praticamente tudo na vida, pois corremos riscos em todas as áreas, o tempo todo.

Somos pessoas diferentes com realidades diferentes, perspectivas e necessidades individuais e por isto é que temos tantas formas de investimentos e quase todas com muitos interessados. Porque sempre existem pessoas dispostas a correr algum risco e pessoas que por qualquer razão não querem correr risco algum.

Se essa afirmação não fosse verdade, como explicar a demanda por bônus argentinos quando o país estava quebrando? Ou como explicar que no Japão as pessoas aplicam o dinheiro e recebem, prestem atenção, 0,5% ao ano de rendimentos? A resposta é porque somos diferentes, temos planos diferentes e por fim: o conceito de risco é relativo.

Existem pessoas que não aplicam em imóveis porque acham muito arriscados e sabem do risco e custos de não ter o imóvel alugado, porém investem todo seu patrimônio em ações dos grandes bancos brasileiros. Outras pessoas não conseguem se imaginar investindo em ações da Vale do Rio Doce (terceira maior mineradora do mundo), mas quiseram ser pioneiras na criação de avestruz no Brasil.

Quais delas estão certas e quais estão erradas? Talvez nenhuma ou talvez todas, porque mais importante do que investir em algo de baixo risco ou de alto risco é investir em algo que você conhece o risco. Se você conhece os riscos de seus investimentos e mesmo assim decidiu faze-los não há com o que se preocupar, o pior cenário você já conhece. Desconhecer os riscos envolvidos nas aplicações financeiras é o primeiro erro a ser corrigido, após isto basta descobrir o quanto de risco você aceita correr, sem perder uma boa noite de sono. 

 

 

 

 

Luiz Gustavo Medina


Formado em Administração de empresa pela PUC e com MBA em Finanças pelo Ibmec Business School. Atua no mercado financeiro há quase 10 anos e é sócio da M2 Investimentos, empresa especializada em alocação de recursos. Além disso, Luiz é controller da Consultoria em Recursos Humanos Luandre, escreveu livros sobre ações de mercado, como “Investindo em Ações – os primeiros passos” e “Investindo sem erro”, e é apresentador da Rádio CBN.
 
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